No passado dia 18 de agosto, a D&AD lançou um relatório sobre IA e Criatividade que me deixou a pensar no nosso futuro, no futuro dos designers que estão para vir. Ou melhor, virão mesmo?
Este relatório foi feito com base na opinião de 197 pessoas da indústria criativa, desde diretores criativos, a estrategistas e até professores. As suas opiniões falam sobre o impacto da IA no trabalho criativo e sobre quais os riscos que a adoção de ferramentas de inteligência artificial pode vir a representar para a próxima geração de designers.
Todos nós, empreendedores que trabalhamos diretamente com clientes na área digital, já tivemos imensas situações com clientes nossos relativamente à IA. Ou porque tiveram uma ideia de um logótipo gerado pelo ChatGPT, ou porque o Claude criou um plano mensal de conteúdos para as suas redes sociais em 1 minuto, ou até mesmo porque criaram um post para as suas redes sociais usando IA.
Sendo brutalmente honesta, eu percebo a 100% estas pessoas. São pessoas que nunca tiveram muito acesso a este tipo de conhecimento e, do nada, a IA consegue dar-lhes aquilo que acharam impensável alguma vez fazer ou ter em meia dúzia de minutos. Muitas vezes, são até pessoas com pequenos negócios em que a única forma de fazerem publicidade a estes é através do uso destas ferramentas.
Qual é o problema aqui? Este uso excessivo de IA está a fazer com que um designer júnior, acabado de sair da universidade, fresco e com ideias fora da caixa, deixe de ter a possibilidade de aprender, desenvolver e melhorar o seu trabalho, aplicando-o num contexto real, porque as empresas preferem pagar 20 EUR por uma IA do que um ordenado a uma pessoa acabada de se formar. Isto porque, na cabeça delas, o trabalho é equiparável (o que sabemos que é totalmente errado).
Aqueles trabalhos gráficos repetitivos, muitas vezes chatos, mas que permitiam que os juniores aprendessem e desenvolvessem capacidade, rapidez e aprendizagem, estão a ser substituídos por IA, o que faz com que, aos poucos, estes jovens deixem de ter espaço no mercado. Portanto, se eles não vão ter forma de começar a entrar aos poucos na área, como é que iremos ter novos designers daqui a 10 anos?
Mas, pior do que este uso desenfreado, é o facto de os próprios professores nas áreas criativas usarem, sem qualquer tipo de cuidado e medida, estas ferramentas para ensinar, obrigando os próprios alunos a usar constantemente as inteligências artificiais para desenvolverem trabalhos, pesquisa, procura. Onde está o reforço de ser uma pessoa pensante e crítica? Onde estão estes professores a estimular estes alunos a absorver conteúdos culturais, visuais, artísticos? Com filmes, séries, arte, fotografia, livros? Onde está esse complemento?
Eu saí da universidade em 2021, com um bom aproveitamento, e muito se deveu às horas que passei a estudar os livros, artigos e até outros conteúdos que os meus professores disponibilizavam para eu realmente aprender. Ou seja, passaram apenas 5 anos e o mundo, até do ensino, virou uma “macacada”. E isto deixa-me extremamente triste. Eu olho para miúdos que estão na universidade na minha área, ou perto de a concluir, e sinto que eles não sabem 1/4 daquilo que foi sumo para mim ao longo dos 5 anos em que estive lá.
Por último, mas importante, parte de nós, profissionais criativos, consciencializar as pessoas do porquê de o nosso trabalho ser importante e, talvez, repensarmos como os trabalhos dos futuros jovens nas nossas áreas podem e devem continuar a ser relevantes. Uma das formas, e para mim a mais gritante, é mostrar que o uso persistente e repetitivo da IA está a fazer com que as marcas tenham a mesma estrutura na comunicação visual, não havendo diferenciação, não havendo um posicionamento claro das empresas, porque está tudo IGUAL.
Devemos redefinir o futuro da nossa profissão, mostrando que a nossa função é a capacidade de análise crítica, a consciência cultural, o julgamento criativo e técnico, como parte do nosso processo de trabalho. E aí, também vos digo, facilmente iremos perceber realmente quem tem, além de capacidade prática, o conhecimento técnico necessário para se afirmar como um profissional na nossa área, pois é isso que nos vai diferenciar no mundo que aí vem.
Portanto, deixo a reflexão, que usei como título deste artigo: se a IA fizer o trabalho dos designers juniores, quem serão os próximos designers seniores?